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sexta-feira, 11 de março de 2011

It's toasted

Sentava nos bancos detonados da rodoviária olhando as pessoas e se perdia em meio a psicologias deduzidas e estereótipos pré-fabricados, qualquer perfil que pudesse montar pra passar o tempo. E quase sempre acabava se apaixonando por alguma desconhecida, às vezes por causa de um tênis, ou a banda estampada na camiseta, ou qualquer coisa do tipo. Não queria ser levado a sério, se apegava irrealisticamente a coisas superficiais como um passatempo, como uma fuga do ordinário. E, mesmo não querendo admitir, se sentia intoxicado pelas ilusões que ele mesmo criava, se sentia exilado de sua própria realidade, idealizando coisas que não conhecia em detrimento de realidades confortáveis. Esfacelava a moralidade com as mãos, deixava o seu vazio ser preenchido por histórias e contos. O gosto de vermelho descia amargo, preenchia seus pulmões, aliviava todo peso de existir. Só mais duas horas até o circular da madrugada chegar, esperava impacientemente.

segunda-feira, 7 de março de 2011

One more cup of coffee

Saiu apressadamente, quase tropeçando nos paralelepípedos da calçada. Chegou do outro lado da rua, entrou por uma porta e ficou feliz por ver o lugar vazio. Olhou para o atendente do outro lado do balcão e finalmente disse o que estava entalado em sua garganta na última hora: - Um café, por favor. Era só mais um dos tantos exageros que tinha, dos tantos vícios. Moderação sempre pareceu uma desculpa repugnante para não ter uma vida. Vícios e defeitos faziam o interesse dele crescer, queria que a vida dele fosse uma imensa tragédia shakespeariana... Não suportaria que fosse uma comédia, não mesmo. Tomou o primeiro gole de café e aquilo queimou sua garganta deliciosamente; se não tivesse aquele café sem açucar pra tomar seu dia nunca começaria direito. E seu dia seguia desajeitadamente, mascando chicletes sem gosto, fumando cigarros pela metade e apagando na sola de seu All Star, andando pra lá e pra cá, o céu nublado e as arquiteturas que ele insistia em admirar. E sentia orgulho de tudo aquilo, e sentia orgulho da vida desajeitada, do andar bêbado que era o ritmo que levava, e dos tropeções que ninguém estava lá para ver.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Manic Depression

Tenho esse retrato enfadonho de vida, de noites rotineiras bebendo, dos mesmos rocks sujos, dos mesmos cigarros amargos, das mesmas pessoas. Ah, as pessoas. Sabe, nunca foi questão de conhecer uma multidão delas, era mais questão de conhecer algumas mais interessantes, um pouco mais de intimidade não faria mal a ninguém. É, acho que eu sinto mesmo falta da intimidade. Ser contradição parece nó cérebral, e gosto mesmo de paradoxos, eu gosto de companhias e gosto de solidão, gosto muito de opostos. Apesar de odiar tanto rotinas, nunca serei tão expontâneo quanto gostaria. Acho que eu preciso mesmo de alguém pra me ajudar a ser menos eu mesmo, acho que preciso mesmo de alguém pra me salvar da rotina dos dias úteis.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Só terei olhos para o seu desmanchar

"Meu juízo, mais do que você, que tem me mostrado os dentes".

Fera caquética da eternidade em asilo forçado, minha mente era um emaranhado de correntes que foram aos poucos sucumbindo ao pesar do tempo. Não escuto mais meus pensamentos, apenas o ranger de dentes da criatura que se prepara para devorar tudo que encontrar pela frente, esperando a última das correntes cair. Mas enquanto ela mostra os dentes para mim, eu os mostro também. O titã assustador, o parasita, precisa tanto de mim quanto eu preciso dele. Preciso dele...
E é porque pessoas razoáveis, pessoas sensatas, são uma vergonha. Eu me orgulho dessa fera, e a trato bem, porque ela me tira da realidade que eu tanto odeio. A fera é companhia, é o animal de estimação que eu tanto pedia, mostro os dentes para convidá-la a brincar comigo.
E dessa forma eu busco fazer algo de expressivo, busco nesse amigo algo que me faça diferente, busco abordar a realidade de uma forma tão utópica e onírica que seria incompreendido pelas outras pessoas. Busco ser incompreendido, e ter apenas nesse amante imaginário alguém que me compreenda; uma companhia eterna no íntimo de meu cérebro. Sem abandono, sem calafrio...
A fera mostra os dentes, e ela sorri.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

gravidade cerebral

Não consigo parar de pensar que as ligações em meu cérebro não funcionam como deveriam; as ligações de ninguém funcionam como deveriam. Parece que nossos pensamentos não são livres, existe uma força vertical para baixo que lerdeia e incapacita a eficácia das ideias. É como se nossos cérebros possuíssem uma capacidade infinitamente maior do que aquela que exercemos, e que nossas ideias são presas ao chão, sem inspiração, devagar. Consigo ver que a capacidade está aqui em algum lugar, mas é preciso um esforço cerebral muito grande para que as ideias fluam como deveriam.



Considero a epifania algo como segundos ou milisegundos de gravidade zero, o perfeito fluxo mental, a conexão com o Mundo das Ideias, um momento de divindade, a melhor viagem de todas, a droga da Eureka.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O pequeno mundo imaginário do garoto que não podia voar

Quando criança desenvolvi um mecanismo para sempre que eu ficasse assustado ou as coisas se tonassem insuportáveis eu pudesse fugir para longe. O mecanismo não passava de um mero artifício mental, eu usava a minha imaginação e fugia para uma realidade alternativa onde eu seria capaz de mutilar aqueles que me ameaçavam e ficar mais próximo daqueles que eu precisava naquele momento. Não estranhem quando eu disser que, mesmo passados tantos anos, eu ainda recorro a esse mecanismo para fugir dos problemas que aparecem na minha vida. Talvez seja mesmo covardia, como você está pensando, ou algum trauma psicológico ou qualquer coisa do tipo, tanto faz. O fato é que não tenho mais controle, sempre que tenho vontade de fugir ou sumir, meu subconsciente quase que automaticamente ativa esse mecanismo; e eu me pego imaginando as coisas mais absurdas e achando aquilo tudo muito ridículo. É uma imunologia que meu cérebro desenvolveu, uma insanidade para me manter mais são, um sistema de defesa psicológico que é em si um problema psicológico. Uma ironia enraizada nos tecidos do meu cérebro.



Ou vai ver é só imaturidade mesmo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O capitalista

Objetivo, dinâmico, materialista, velocidade nas ações e reações. Egoísta, orgulhosamente engrandece a si mesmo, considerando-se uma engrenagem necessária para o funcionamento das coisas ao seu redor, e ao mesmo tempo se sente preso a esta submissão. Raciocínio rápido, observador que precisa estar sempre em movimento, ascendendo ou estabilizando pra resolver e evitar problemas. Reifica tudo, sentimento de propriedade, possessivo. Precisa exercer controle, ter total consciência do que se passa ao seu redor ou com pessoas próximas. Tem ciúmes daquilo que foge ao seu controle, daquilo que foge da sua compreensão e das suas estatísticas. Nega-se a admitir opiniões contrárias a sua. Desconfiado de tudo e de todos, não confia facilmente. Substancial, adptando-se às diferentes situações como um líquido facilmente muda sua forma ... talvez nunca sendo o 'verdadeiro eu'.

Eternamente uma contradição de si mesmo.

"A profissão que me deu qualidades tão ruins. E a desconfiança é também consequência da profissão. Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes"
(São Bernardo, de Graciliano Ramos)