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domingo, 8 de maio de 2011

Descompasso

Talvez a solução fosse enterrar
a cabeça aérea no travesseiro,
mergulhar no mundo que desenhava
na contracapa de cadernos velhos,
nos traçados imaginários de sua cabeça
que borracha nenhuma apagaria.

Acordada,
a cabeça é um tanque de pensamentos engaiolado
uma prisão de coisas possíveis e corretas
tomar xícaras e xícaras de café parece um paradoxo estranho
para quem não quer mais ficar
acordado.

O mudo-mundo cospe todo dia em nossa face
que somos livres, como pássaros desengaiolados,
mas até quando é liberdade
seguir as grandes massas, as grandes migrações?
Ter um mundo de possibilidades
que de nada nos serve?

Eu e você deveríamos ser pássaros anárquicos
atravessar o espelho, desparafuzar o mundo,
desordinarizá-lo, tirar a vida do eixo
só pra ver o que aconteceria,
pra ver até quando este imaginário aguentaria
fazer da rotina dos loucos a nossa própria rotina.

domingo, 17 de outubro de 2010

Antropofagia


Sinto falta das marcas no meu corpo, qualquer mordida ou arranhão para o qual as pessoas olhassem e entendessem que eu, em algum grau, encontrei o amor. Sinto falta do que você viria a significar, e de ficar encharcado com você embaixo da chuva misturando água e saliva, ignorando o frio e todo o resto do mundo. Minhas paredes sentem falta dos arranhões, meu travesseiro sente falta das mordidas, e eu sinto sua falta. Sinto falta de mascar seus chicletes sem gosto, de eu pegar tudo que é seu, de você completar tudo que é meu. Vivo como Hati, olhando a lua lá em cima e correndo atrás enquanto ela atravessa os céus; quem sabe um dia eu irei alcançá-la e devorá-la.

domingo, 10 de outubro de 2010

With a little help from my friends

Procurei pensar sobre nada relevante por algumas horas, esquecer situações deletérias e gritar rock and roll até os meus pulmões não aguentarem mais, até o mundo fazer um pouco de sentido. Foi o rock, foram as chances perdidas, foram os abraços envolvidos de efemereuforia, foram as danças e as trocas de olhares, foi reviver uma memória coletiva, foi ver diante dos olhos um sonho quase sendo realizado, e foi ver a realidade afundando num copo de bebida, expirando no ar como a fumaça de cigarro. Foi eu buscando tragar todos os sentimentos daquele momento único, e vendo as memórias-fumaça desaparecendo no céu estrelado, acendendo uma estrela qualquer. Foi eu querendo eternizar aquelas memórias em meu corpo com marcas de cigarro e machucados quaisqueres, buscando algo para o qual olhar e lembrar de tudo o que aquelas músicas representavam. Foi aquele vortex temporal que me levava para memórias nunca vividas, nostalgia herdade de algum tempo qualquer, de uma idealização convincente. Foi bom.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Efeito placebo


Estou aceitando qualquer pseudo felicidade, qualquer fortuito que engane meu cérebro, qualquer coisa para me iludir. Qualquer mentirinha que me faça achar tudo mágico e distante.

domingo, 12 de setembro de 2010

la vie et la mort du bonheur

Nadava, nadava com todas as suas forças para conseguir tirar aquele corpo que se afogava das profundezas do oceano. A costa ainda estava longe, mas ele não podia desistir agora; o corpo parecia um peso morto, a pessoa já havia sufocado tanto que estava desmaiada. Depois de muito esforço conseguiu finalmente chegar à praia, algumas pessoas que estavam por perto vieram socorrer o afogado enquanto ele, o salvador, se atirou na areia maldizendo sua incapacidade de salvá-lo, jurava que não existiam esperanças. Foi quando escutou aquele respirar profundo de quem acabou de escapar de um afogamento, seguido de tosse. Levantou-se para olhar o rosto da pessoa...

Espantou-se com o que viu e, por algum tempo, achou que estava a ver coisas. Coçou os olhos e fitou a pessoa mais uma vez... não, não era ilusão, aquela pessoa realmente era ele mesmo. Sentia-se fragmentado e aquela fisionomia era apenas um dos pedaços de coisas que ele havia perdido.

Nadou, nadou e nadou; mas não morreu na praia.

sábado, 4 de setembro de 2010

anca

Via-se refletido no espelho e, apesar da margem de erro, não conseguia parar de sonhar com as possibilidades que aquele encontro consigo poderia proporcionar. Esperou sua vida inteira por um momento assim, poder conhecer um protótipo de si, o mesmo molde que poderia tomar caminhos diferentes e ser melhor do que ele jamais foi. Via naquele reflexo um sonho de criança, o sonho de Narciso tornando-se realidade, via toda a possibilidade que aquele momento conspirado estava lhe proporcionando. Via-se refletido no espelho.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

pretérito perfeito



Parece que necessariamente as coisas boas precisam ser efêmeras, não lembro a última vez que tive alguma lembrança memorável que teve duração relevante. E odeio muito essa linearidade do tempo, o fato das lembranças serem um recurso tão falível para reviver momentos. Gostaria de poder brincar com as minhas memórias quando bem entendesse, pegar aquele momento de felicidade e segurá-lo em minhas mãos, puxar do meu cérebro aquele flash e revivê-lo várias e várias vezes. Revivê-lo fielmente.

domingo, 20 de junho de 2010

Pick-esconde no seu gozo

É tão divertido diverti-la, vê-la dar risada de coisas bestas, abraçá-la depois de falar alguma besteira irritante, e reclamar das coisas até fazê-la perder a paciência comigo. É tão divertido sair por aí com ela sem saber aonde querer chegar ,assistir filmes desconhecidos, ir na livraria e ficar horas olhando as prateleiras, dizer alguma coisa proposital só pra ver se ela ficaria com ciúmes. É tão divertido simplesmente ficar ao lado dela, meu braço sobre seu ombro, conversando sobre nada relevante. É tão divertido acordar e ver que, dessa vez, não foi tudo um sonho e que ela estava lá, dormindo ao meu lado com suas mãos envolvendo as minhas. É tão divertido fazer tudo o que sempre quis, do jeito que eu sempre quis e com quem eu sempre quis.


Quer dizer, eu acho que deve ser.

Vai ver eu tento me esconder em você, e desse jeito acabo lhe sufocando. Vai ver eu me sinta protegido pensando essas coisas, mas acabe causando uma irritação imensa em você. Vai ver eu esteja errado de sonhar tanto, de falar tanto sobre isso, e viver nesse híbrido de passado/presente/futuro, perdendo a noção de tudo ao meu redor. Vai ver eu devia parar. Pensar menos, falar menos, sonhar menos pra viver mais. Mas eu não sei sonhar menos, assim como eu não sei reclamar menos, e querer irritar você menos. Vai ver é só meu jeito de me proteger, esse meu depender de outra pessoa, um defeito muito grande de personalidade. E é por isso que quando você me pergunta se tenho certeza do que quero eu respondo que sim, porque não é fácil suportar este meu jeito, e se você suporta eu posso muito bem aceitar o seu jeito, mesmo não o conhecendo direito.

Uma vez me disseram que amar é aceitar as imperfeições da pessoa que você tem ao seu lado, vai ver é isso mesmo. Desculpa por irritar tanto você com essas bobagens, com as minhas bobagens do pretérito e as minhas bobagens sobre o futuro, e meu jeito de não saber viver o presente; vai ver é porque eu quero um presente diferente, um presente com você.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Cabral

"Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada"

A ausência, a completa ausência de um não sei o quê. É como se minha vida toda eu estivesse dormindo (..) sou apenas um vulto dormindo, estagnado, esperando alguma coisa acontecer, arrastando-me pela vida suja e abafada. Essa ausência que se manifesta como uma lâmina ou bala, cuidadosamente acoplada na pele e que com seus dentes mastiga a carne. Ou então como um relógio, compassado e constante (como a saudade do que falta, como os batimentos do coração engaiolado).

Parecia ter perdido uma coisa que eu nunca realmente tive, estava como um 'cão sem plumas'; as vezes parece que a vida corrói até mesmo o que não temos, destrói os sonhos. Aos poucos o que idealizamos cai aos pedaços. Por tempos, a falta dessa esperança frágil nos torna irreconhecíveis àqueles que acreditavam nos conhecer; é como uma mudança de estações, talvez um ciclo que tende a se repetir.

Sentia-me neste verão nordestino, da caatinga, do semi-árido, magro de esperança, seco de sonhos, vida na morte, morte na vida, solitário em dunas de areia que sufocavam os pés e dificultavam a movimentação, a articulação de ideias. Sôfrego de sonhos.

E a ciclagem das estações continua, infinitamente. É impossível viver sem um sonho.

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio"