Os pontos de fuga misturavam-se,
planos bidimensionais e tridimensionais
criavam um espetáculo de sinfonia maluca
em sua cabeça desorientada.
A cidade era-lhe um sinônimo,
um gigante de concreto e aço
com caos correndo em suas ruas,
veias e artérias entupidas.
Pulmões carregados,
os escapamentos cuspindo fumaça,
e os prédios arranhando o céu
feito disco de vinil.
Enterrava a falange das mãos no crânio
tentando decifrar aquela esfinge
que ameaçava devorá-lo em becos escuros,
becos de sua mente, becos dele mesmo.
Escorregava os pés pelos corredores apertados,
pelas escadarias espirais, labirintos pessoais.
Em meio a microuniversos desenhava trajetos,
um mundo de expectativas todas novas.
Detonava a cabeça com suas filosofias,
ainda tinha insegurança no andar
e constantemente pisava em falso
por entre os espaços de sua respiração.
Mas parecia se encontrar
por entre as pilhas de livros espalhados pela casa,
por entre o vão da estante de filmes.
Parecia encontrar-se nela.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
Tom, the rain dog
E o concreto lhe invadia feito onda, as pernas enterradas até a altura dos joelhos, os pés despedaçados, estava cansado. A vida era-lhe um retrato surrealista de mãos contorcidas e faces deformadas, vivia dentro de um relógio como ponteiro, andando em círculos e tentando justificar que iria chegar em algum lugar eventualmente, era rotina justificável. E queria enlouquecer, fugir de seu mundo de 360 graus, expandir; a auto-destruição era um preço baixo a pagar em nome de uma boa história, em nome de uma boa biografia. Mas havia dado tantas voltas que o tempo havia passado, e agora estava ele, um velho beberrão de tosses doloridas, de ideologias e gostos ultrapassados, o rosto cheio de rugas, solitário em um bar ouvindo um albúm de 1985. Sua vida se resumia a uma imensa quantidade de relíquias, de discos antigos e prateleiras de livros, uma coleção bem vinda a qualquer sebo da cidade. Tinha essa ideologia de vida que nunca teve coragem de botar em prática, preferindo sempre a caretice das coisas seguras, o enfado desprezível. E, ridiculamente, se apegava a dizeres literários; seus olhos brilhavam quando lia o trecho em que Leminski dizia: 'Pense e te apareça, senão eu te invento por toda a eternidade'. E o relógio que estava prestes a parar ganhava corda e continuava girando em seu mundinho de ilusões.
sexta-feira, 11 de março de 2011
It's toasted
Sentava nos bancos detonados da rodoviária olhando as pessoas e se perdia em meio a psicologias deduzidas e estereótipos pré-fabricados, qualquer perfil que pudesse montar pra passar o tempo. E quase sempre acabava se apaixonando por alguma desconhecida, às vezes por causa de um tênis, ou a banda estampada na camiseta, ou qualquer coisa do tipo. Não queria ser levado a sério, se apegava irrealisticamente a coisas superficiais como um passatempo, como uma fuga do ordinário. E, mesmo não querendo admitir, se sentia intoxicado pelas ilusões que ele mesmo criava, se sentia exilado de sua própria realidade, idealizando coisas que não conhecia em detrimento de realidades confortáveis. Esfacelava a moralidade com as mãos, deixava o seu vazio ser preenchido por histórias e contos. O gosto de vermelho descia amargo, preenchia seus pulmões, aliviava todo peso de existir. Só mais duas horas até o circular da madrugada chegar, esperava impacientemente.
segunda-feira, 7 de março de 2011
One more cup of coffee
Saiu apressadamente, quase tropeçando nos paralelepípedos da calçada. Chegou do outro lado da rua, entrou por uma porta e ficou feliz por ver o lugar vazio. Olhou para o atendente do outro lado do balcão e finalmente disse o que estava entalado em sua garganta na última hora: - Um café, por favor. Era só mais um dos tantos exageros que tinha, dos tantos vícios. Moderação sempre pareceu uma desculpa repugnante para não ter uma vida. Vícios e defeitos faziam o interesse dele crescer, queria que a vida dele fosse uma imensa tragédia shakespeariana... Não suportaria que fosse uma comédia, não mesmo. Tomou o primeiro gole de café e aquilo queimou sua garganta deliciosamente; se não tivesse aquele café sem açucar pra tomar seu dia nunca começaria direito. E seu dia seguia desajeitadamente, mascando chicletes sem gosto, fumando cigarros pela metade e apagando na sola de seu All Star, andando pra lá e pra cá, o céu nublado e as arquiteturas que ele insistia em admirar. E sentia orgulho de tudo aquilo, e sentia orgulho da vida desajeitada, do andar bêbado que era o ritmo que levava, e dos tropeções que ninguém estava lá para ver.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Manic Depression
Tenho esse retrato enfadonho de vida, de noites rotineiras bebendo, dos mesmos rocks sujos, dos mesmos cigarros amargos, das mesmas pessoas. Ah, as pessoas. Sabe, nunca foi questão de conhecer uma multidão delas, era mais questão de conhecer algumas mais interessantes, um pouco mais de intimidade não faria mal a ninguém. É, acho que eu sinto mesmo falta da intimidade. Ser contradição parece nó cérebral, e gosto mesmo de paradoxos, eu gosto de companhias e gosto de solidão, gosto muito de opostos. Apesar de odiar tanto rotinas, nunca serei tão expontâneo quanto gostaria. Acho que eu preciso mesmo de alguém pra me ajudar a ser menos eu mesmo, acho que preciso mesmo de alguém pra me salvar da rotina dos dias úteis.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Garota estereótipo
Não que não gostasse dela, pensou consigo enquanto procurava no armário algo para comer. Ele simplesmente não suportava o fato dela representar a quebra de todos os estereótipos e expectativas que tinha, não gostava daquela vida que parecia a de um casal que estava junto há mais de vinte anos, aquela falta de idealização ridiculamente o incomodava. O jeito dela falar, de andar, até mesmo de beijá-lo, lhe causava repugna. Pensou que deveria ter problemas de intimidade, ou que pelo menos tinha um péssimo gosto para garotas, um gosto masoquista. Sempre se apaixonava pelos tipos mais improváveis, e se apegava facilmente à pessoas que estavam simplesmente lhe dando atenção, e que muitas vezes nem se importavam com ele. As pessoas o entediavam com muita facilidade, achava a maioria das garotas simplesmente desinteressante, buscava em outras pessoas uma fuga pra monotonia de sua vida mesmo sabendo que seria inútil; santas do pau oco e garotas problemáticas não eram a solução para sua rotina, apesar de achá-las muito mais interessantes do que quaisquer outras garotas. Queria o clichê e o blasé, tudo junto e misturado. Deu mais uma olhada no armário, nada ali abria seu apetite. Pra falar a verdade, nada ali lhe interessava. Precisava ir logo.
domingo, 19 de dezembro de 2010
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